OA: Mitos e Verdades IV
Existem como vem sendo apresentado diversos mitos e diversas verdades a respeito do OA. Falta discutir a questão do copyright no contexto do Open Access. Considerando que não sou especialista e tambpouco estudioso da questão relacionada ao copyright, apresentarei ua tradução de um texto muito bem estruturado escrito por Peter Suber, o líder de uma revolução sem líderes, intitulado: Open Access and Copyright. É um texto muito interessante e também de difícil tradução, além de ser muito longo. Por este motivo dividirei este post em três partes, que serão publicados nos próximos dois dias. Quero aproveitar para fazer um agradecimento de público ao Peter Suber pela gentileza de consentir essa tradução.
Antes de dar início ao post, gostaria de salientar o aparecimento de dois termos: OA gratis e OA livre. O OA gratis refere-se ao acesso à informação científica livre de custos (custo = zero reais ou dolares). O OA livre refere-se ao acesso à informação livre de barreiras de licenciamento ou contratos. Passo, doravante a reproduzir a primeira parte do texto Open Access and Copyright.
Desde o início, OA lutou contra a suposição generalizada de que deveria violar as leis de direitos autorais. Mas esta tem sido uma luta contra esta percepção, não é a realidade. Na verdade, não violar sempre foi mais fácil do que ficar fora dessa falsa suposição e dos danos que isto causou.
http://www.earlham.edu/~peters/fos/newsletter/10-02-08.htm#nih
http://www.earlham.edu/~peters/fos/newsletter/03-02-09.htm#conyers
A suposição fez com que alguns autores tivessem medo do OA. Esta suposição dificultou algumas instituições comprometer-se com o OA. Tem desnecessariamente enfraquecido algumas políticas OA, por exemplo, criando brechas para editores dissidentes. Isto foi mesmo um pretexto desonesto para uma legislação ruim.
Existem métodos à prova de bala para os editores e repositórios OA, para evitar problemas relacionados com a lei do copyright. Estes métodos são mais conhecidos hoje do que eram há cinco anos atrás, mas ainda lutamos contra o mesmo pressuposto falso, o mesmo medo, o mesmo alvoroço, a mesma capitulação desnecessária, e a mesma desonestidade. Aqui está uma tentativa de esclarecer a situação em uma dezena de proposições.
(1) O “fair use”, ou “uso justo”, não é suficiente para autorizar o OA. O OA gratis excede o uso justo através da distribuição de um trabalho, texto integral, para uma audiência mundial. O OA livre excede o “uso justo” ao permitir que os usuários do trabalho excedem o “uso justo”.
http://www.earlham.edu/~peters/fos/newsletter/08-02-08.htm#gratis-libre
Esclarecer o “uso justo”, empurra o envelope em “uso justo”, e expandir o “uso justo” são desejáveis. Mas eles são insuficientes para autorizar o OA.
Observe que o “fair use” também não é suficiente para autorizar o TA (acesso por meio de assinaturas) tampouco.
(2) O Domínio público (DP) é mais que suficiente para autorizar OA. Mas ele só autoriza OA para trabalhos que estão sob domínio público, e a maioria das obras para as quais queremos OA estão sob a lei do copyright. Assim, na maioria das vezes o DP também não é suficiente.
Proteger o domínio público (DP), impedindo os direitos autorais retrospectivos (pirataria do DP), e expandindo o DP são desejáveis. Mas eles são insuficientes para o OA a trabalhos protegios pela lei do copyright, uma categoria que abrange quase todos os artigos sobre novos resultados de pesquisas.
Observe que o DP também não é suficiente para autorizar a publicação TA convencional que também estão sob a proteção da lei do copyright.
(3) Se o “uso justo” e o DP não são suficientes para autorizar o OA para o texto integral sob a lei do copyright, então precisamos da permissão do detentor do copyright.
Observe onde chegamos. OA para texto completo de obras sob copyright evita violar, exatamente, da mesma maneira, que a publicação TA convencional evita violar. Para o trabalho suficientemente velho, OA e TA pode confiar no DP. Para trabalhos mais recentes, sob copyright, eles contam com o cessão do detentor do copyright.
Se um jornal publica um novo artigo, sem a permissão do autor, ele está violando o copyright, seja a revista OA ou TA. O acordo de publicação é o meio pelo qual o autor, como detentor do copyright original, concede a permissão para o editor. Detentor do copyright libera o editor para continuar sem responsabilidade ou medo de responsabilidade.
As revistas OA, assim como as revistas TA, fazem contratos com os autores para assegurar a permissão necessária e eliminar a violação do copyright. Os repositórios OA obtém permissão dos detentores do copyright também. Embora, isto signifique obtê-la dos autores antes deles transferirem os direitos para a revista, e algumas vezes ele o obtém dos editores após estes adquirem os direitos dos autores.
(4) Autores de novos trabalhos são os detentores do copyright até ou, a menos que, eles o transfiram para uma outra pessoa, como por exemplo, o editor. Os editores somente detêm os direitos que os autores voluntariamente transferem para eles.
Este é o segundo ponto em que a pernicosa suposição generalizada erra. Ela pressupõe que os editores sempre mantêm todos os direitos. Um terceiro erro relacionado é pressupor que os editores costumam usar os direitos que detêm para se opor ao OA.
Em princípio, os editores não possuem quaisquer direitos. Mesmo depois de assinados contratos, os autores podem reter alguns direitos e transferí-los a outros. E mesmo depois de os editors adquirirem direitos de autores, muitos editores optam por permitir o OA. Na verdade, a maioria dos editores das revistas TA pesquisados permitem a estratégia verde do OA e um número crescente de editores vêm experimentado a via Dourada do OA (leia mais no ítem 8).
Infelizmente, devido ao tamanho excessivo do texto, este post se encerra aqui. Um segundo post, continuação deste, será publicado amanhã, dia 17/08/2011. Em caso de dúvidas, por gentileza, deixe o seu comentário.
OA: Mitos e Verdades III
Este post tentará esclarecer um dos pontos mais polêmicos das estratégias do OA e que tem causado muitas dúvidas, inclusive fomentando a desinformação, conforme artigo publicado em jornal da grande mídia, na página 2, por Marco Antonio Raupp, Jacob Palis Jr. e Luis Eugênio Araújo de Moraes Mello, no dia 20 de janeiro de 2008. Trata-se de um artigo que denota total parcialidade e não analisa com base em dados reais, além de não mostrar quais são as estratégias do OA. Não vale à pena discutí-lo neste espaço.
A propósito, antes de iniciar a disutir este novo mito, agradeço à Profa. Cristiane Galvão pela sugestão deste post. A questão que incomoda é o fato de as revistas OA adotarem um modelo de negócios para a sua sustentabilidade, no qual estas exigem o pagamento de uma taxa de publicação aos autores para que os seus artigos estejam disponíveis em acesso livre. Hoje, o valor dessa taxa é ainda muito caro e varia de revista para revista.
No entanto, antes de mais nada, é preciso entender que o OA preconiza duas estratégias para se alcançar o OA universal: a via Dourada e a via Verde. A via Dourada é esta em que se propõe que as revistas sejam de acesso livre, ou revista OA. A via Verde preconiza a todos que publicam em revistas científicas que não são de acesso livre, que depositem uma cópia de seus artigos em repositórios de acesso livre. Está comprovado que a estratégia da via Verde é a que oferece melhor relação custo/benefício e é a que condizirá, mais rapidamente, ao OA universal, visto que, ela depende unica e exclusivamente da comunidade científica ou mais especificamente dos pesquisadores porque são eles os autores. No caso da via Dourada, ela depende dos editores científicos para se concretizar. Apesar do crescimento do número de revistas OA, o caminho é longo e demorado. E, isto é demonstrado por um post de Stevan Harnad, publicado em seu blog ontem dia 11/08/2011, em resposta a um artigo intitulado Research intelligence – ‘We all aspire to universal access’.
Assim, a via Dourada não é a estratégia mais recomedada. Este é o ponto não explicado no artigo mencionado acima, no início deste post. Não se pode medir o custo do OA apenas considerando a taxa de publicação e o número de artigos publicados. É preciso considerar que O OA tem duas estratégias, conforme mencionado anteriormente e que o OA têm apenas 10 anos. O OA encontra-se, pois, em um momento de ajustes, de amadurecimento. O custo das taxas de publicação está ainda muito alto. A tendência é que este custo baixará, leiam post publicado em meu blog, traduzido de um post de Stevan Harnad.
Neste post, Stevan explica que à medida que a estratégia verde torne o OA universal, a tendência é a de que as universidades/bibliotecas/governos cancelarão as assinaturas das revistas que são mantidas em suas coleções ou, em caso de revistas eletrônicas fornecem acesso a seus usuários. Em consequência os editores dessas revistas verão as suas receitas caírem e forçosamente terão que buscar algum outro modelo de negócios capaz de dar sustentabilidade às suas revistas. É possível que esse modelo seja o atualmente adotado pelas revistas OA, no qual os autores pagam pela publicação de seus artigos que permitirão às revistas torná-los acessíveis livremente.
As taxas de publicação atualmente cobradas dos autores estão muito altas e a expectativa é que esses valores caiam à medida que esse modelo se consolide. Hoje, a melhor estratégia, portanto, é que os autores continuem publicando nas revistas de sua preferência e, em seguida, depositem uma cópia de seus artigos publicados em reositórios de acesso livre.
Acho ainda prematuro adiantar qualquer outro detalhe e, qualquer coisa que se diga será mero exercício de futurologia ou especulação. Estimulo a todos que não entenderam os posts apresentads nessa série de matérias “OA: Mitos e Verdades” ou tiveram dúvidas, encaminhem um comentário com suas dúvidas e questões, que terei satisfação em esclarecê-los.
As revistas de acesso livre tem fator de impacto?
A nature publicou um texto apresentando o ponto de vista de James Pringle, vice-presidente Development, Academic and Government Markets da Thomson ISI.
Segundo James Pringle, “uma das questões mais frequentes é sobre a posição da Thompson ISI a respeito do acesso livre. Ele se mostra surpreso porque ninguém questiona sobre a posição da Thompson ISI a respeito das revistas comerciais, das revistas da associações e sociedades científicas. A resposta é bem direta: se o acesso livre produzir revistas que disseminem informação relevante de alta qualidade para os pesquisadores, estas serão incluídas em suas bases de dados, caso contrário, não serão.”
Outra questão colocada é: “Há evidências que possam ajudar a indicar o impacto e influência de revistas de Acesso Livre na comunidade científica? Para começar a responder essa questão, a Thompson ISI realizou, recentemente, um pequeno estudo com revistas de acesso livre indexadas. Foi definido Acesso Livre puramente em termos do acesso – sem se preocupar com quem paga por ele – checando listas disponíveis de tais revistas e tentando verificar se as edições atuais e retrospectivas eram diretamente acessíveis pela Internet sem custos.
Não houve intenção que este estudo fosse exautivo ou definitivo. Foi simplesmente um primeiro olhar aos dados disponíveis. Futuramente, haverá maiores refinamentos e análises na medida em que os dados estiverem disponíveis.
Vários fatos se destacaram. Primeiro, fomos surpreendidos pelo número de revistas de Acesso Livre selecionadas para o estudo. Mais de 190 revistas de Acesso Livre passaram por um rigoroso critério de seleção. Em segundo lugar, estas revistas tendem a se comportar como as revistas constantes na nossa coleção. Enquanto algumas delas estão entre as mais importantes de suas áreas, outras não estão. Embora como grupo elas possam estar recebendo, inicialmente, mais citações, essas evidências, hoje, não são conclusivas e a diferença não é dramática.
É impressionante a variedade de revistas que apareceram nessa análise. Algumas, como a BMJ, tem uma longa e pretigiosa história, que trouxeram para esse novo modelo. Outras, como a BMC Câncer, são revistas recentes em busca de uma reputação. Outros ainda, como a Brazilian Journal of Microbiology, são revistas de importância regional que usam o Acesso Livre como uma forma de expandir a consciência global. Estas distinções são importantes. Existem várias rotas para o Acesso Livre, e os objetivos de cada editor podem ser diferentes.”
É importante salientar que a Brazilian Journal of Microbiology é mantida e disseminada via o SciELO.
Na visão de James Pringle, “o Acesso Livre, em si, não significa necessariamente mais citações nestas revistas – nem equivalem a menos. Nós achamos que isso acontece porque o aumento do número de leitores potenciais às revistas não altera o valor fundamental e relevância de um artigo em uma revista para o trabalho de um pesquisador em particular. Se algum modelo de acesso escolhido permite que a revista seja lida por todos ou pela maioria de seu público-alvo, esta audiência julgará a sua relevância. As revistas e outras formas de publicação científica terão impacto com base em outros critérios e não apenas no critério de ter acesso livre.
Cada vez mais, a literatura científica está se tornando mais acessível ao grande público, sob várias formas. Algumas revistas são inteiramente acessíveis ao público em geral sem nenhum custo. Outras são de acesso público, em grande parte. Outros ainda, embora não estejam acessíveis ao público em geral, são acessíveis à grande maioria de seu público-alvo por meio de contratos ou licenciamentos. Se a revista pode ser acessada pelo seu público-alvo, então os componentes de qualidade do jornal, tais como o perfil de seu conselho editorial, sua capacidade de atrair excelentes artigos e assim por diante, continuará a ser primordial que se pague para a sua produção.
Dado o processo de seleção, o nosso estudo não mede toda a gama de influência da literatura de Acesso Livre. Em vez disso, ele mede o impacto dessa literatura sobre o núcleo de publicações científicas – em certo sentido, a sua entrada no cerne da comunidade científica. A publicação científica está sendo reformulada de outras maneiras, com efeitos incertos. Algumas informações de qualidade que tem sido tradicionalmente disponibilizadas apenas como artigos coletados em revistas científicas está se tornando acessíveis diretamente como artigos depositados em repositórios institucionais. Estes repositórios podem ter padrão diferente de citação. Olhando ainda mais adiante, o artigo científico, em si, pode, eventualmente, ser dividido em componentes, como seus dados, objetos multimídia e materiais complementares tornam-se mais acessíveis diretamente a partir de bancos de dados, mas é muito cedo para prever até que ponto o Acesso Livre depende de ter uma ‘revista’ como nós atualmente conhecemos.
Nossas observações permitem aprender algumas lições úteis. Os periódicos de Acesso Livre podem ter um impacto semelhante a outras revistas, e os autores em potencial não deve temer a publicação nessas revistas apenas por causa de seu modelo de acesso. Além disso, não parece que a expansão do número de leitores potenciais, em si, transformará necessariamente o impacto de uma revista.”
Enfim, apesar do fato de a estratégia da via Verde ser a que oferece melhor custo/benefício e vir se consolidando em várias partes do globo, a estratégia da via Dourada não está totalmente parada, e a Thompson ISI comprovou isto, pelas palavras de James Pringle. Aliás, essa comprovação coincide com os resultados do estudo SOAP feito promovido pela Comunidade Européia junto a mais de 40 mil pesquisadores.
É preciso considerar também que James Pringle representa a Thompson ISI e, alguns de seus pontos de vista não são imparciais, evidentemente, existem interesses em jogo. Mas, o importante de tudo é que as revistas de acesso livre são similares a qualquer revista científica e pode tanto ter um alto fator de impacto ou não, depende da qualidade de seu comitê editorial, da qualidade dos artigos publicados e outros fatores. James Pringle tentou desqualificar o fato de um maior acesso provocar maior fator de impacto.
Última parte da síntese da entrevista de Peter Suber
Nesta parte final da entrevista de Peter Suber ao jornalista Richard Poynder, ele fala sobre as revistas OA, especialmente das revistas que utilizam o modelo PLoS ONE. É um tema interessante a estudar, tendo em vista, que este modelo poderá contribuir para que as revistas brasileiras tornem-se auto-sustentáveis. Vejam o que diz Peter Suber.
PLoS ONE é um modelo importante para uma revista revisada por pares, mesmo em um contexto de outras revistas revisadas por pares OA. O rápido crescimento de revistas que utilizam modelo similar ao do PLoS ONE é um desenvolvimento significativo na área de publicação de revistas em geral, especialmente à luz do fato de que algumas das revistas clones do PLoS ONE, eram, antes, os críticos mais duros do modelo PLoS ONE.
Em qualquer ciência, onde há algum consenso profissional sobre metodologia, faz sentido separar a solidez metodológica da importância e se concentrar na solidez da revisão da pré-publicação. Tentar superar a importância, assim como o crescimento da solidez no tempo e no custo da revisão por pares introduz um elemento subjetivo no juízo editorial.
A importância é melhor julgada por toda a comunidade na discussão aberta após a publicação do que por alguns pares em privado antes da publicação. Os riscos são maiores do que possa parecer, uma vez que a revisão da pré-publicação leva mais tempo do que temos de esperar para que o artigo revisado se torne OA.
O modelo se espalhará porque ele é menos dispendioso que a tradicional revisão por pares. Pode até mesmo ter se iniciado porque é menos dispendioso que a tradicional revisão por pares. Eu gosto da idéia de economizar dinheiro, especialmente em revistas OA. Mas, a minha visão pessoal, é que a redução dos custos é um argumento mais fraco a seu favor que sua velocidade e foco sobre questões passíveis ao jugamento científico.
Eu concordo com Stuart Shieber que o modelo PLoS ONE está atraindo alguns editores de alto prestigio para o mundo da estratégia da via Dourada do OA, o qual crescerá o número de títulos OA de alto prestígio. Eu também concordo que o núemro de novos clones PloS ONE aumentará a competição entre os autores, que tenderá a melhorar em termos, por exemplo, de uma menor taxa de publicação e licenças menos restritivas.
Eu também concordo com Phil Davies que se o PloS continua a conceder isenção de taxas sem ser pedido, e se o novo clone PLoS ONE não, então PloS poderia ver um aumento constante no número de autores indigentes, subtraindo qualquer economia que atualmente se possa perceber a partir do modelo. Eu não vejo uma boa solução para este problema, a não ser fazer o caso que todas as revistas com base em taxa OA, incluindo os novos clones, deve oferecer isenção de taxas em casos de dificuldades econômicas. Mas eu não espero que o argumento sobrecarregue os editores que querem maximizar os lucros e minimizar a estabilidade financeira de um rival.
Como o OA provará ser a forma mais barata de publicar artigos acadêmicos que o modelo tradicional?
Há boas razões para achar que uma publicação OA custe menos, e continuará custar menos que as publicações baseadas em assinaturas no mesmo nível de qualidade. Há vários estudos indicando isto.
Entretanto, há também quem conteste a conclusão, geralmente sem evidências ou com evidências equivocadas, tais como a experiência de editores gigantes com sobrecargas do legado da idade de impressão e assinaturas. Fico feliz em deixá-lo uma questão empírica e esperar por dados mais decisivo a surgir. Mas minha hipótesevbaseada em evidências atuais é que a publicação OA vai custar menos. ”
Peter Suber fala sobre o estágio atual das iniciativas OA
Conforme comentei em um post anterior, apresentarei nestes próximos posts apenas uma síntese da entrevista realizada pelo jornalista Richard Poynder com Peter Suber, um dos mais importantes defensores do Open Access (OA). Aqueles que tiverem dificuldades para entender a síntese que apresentarei poderão ler um artigo que publiquei recentemente no Jornal da Ciência.
Peter Suber foi um dos pesquisadores que contribuíram para o surgimento do OA. E, esta talvez seja a mais importante entrevista já realizada sobre o OA, tendo em vista que, Suber explica a situação atual das estratégias e iniciativas do OA. Leiam a síntese a seguir.
Por quê e para quê OA?
Os autores precisam do OA para alcançar todos os leitores que poderão construir seu trabalho, aplicá-lo, estendê-lo, citá-lo ou fazer uso dele. Leitores precisam do OA para encontrar e recuperar todas as coisas que eles precisam ler e processar tudo que eles necessitam processar.
O OA não é meramente um compartilhamento de conhecimentos. Ele acelera a pesquisa visto que ajuda o autor e o leitor encontrar-se mutuamente. Ele é compatível com intermediários mas não é compatível com intermediários que levantam as barreiras contra o acesso para manter os autores separados dos leitores.
Basicamente nós precisamos do OA para resolver o sério problema de acesso que dificulta aos pesquisadores, tanto os autores quanto os leitores. Mas, nós também precisamos agarrar essa bela oportunidade oferecida pela Internet, especialmente a oportunidade para distribuir cópias perfeitas de artigos revisados por pares junto à audiência mundial a um custo marginal igual a zero.
Sobre a situação atual da estratégia verde OA:
Para mim, não há simplesmente uma linha de chegada para o OA. Mas, nós estamos nos aproximando rapidamente do ponto onde a via verde do OA torna-se o padrão para os artigos resultados das novas pesquisas, mesmo se ela coexiste com o acesso pago (ou acesso mediante pagamento de assinaturas) das revistas cientíicas tradicionais. A via verde do OA já é o padrão para a área da física em todo o mundo, e para a medicina na América do Norte, por diferentes razões.
O ritmo do progresso varia de área do conhecimento para área do conhecimento e de país para país, mas a direção do progresso é o mesmo em todo os lugares. A curva é ascendente em qualquer lugar. E a razão é a mesma em quase todos os lugares, ou seja, o forte crescimento das políticas aderentes à via Verde do OA, adotadas por agências de fomento e univesidades. Algumas políticas são fracas e tem pouco efeito, mas a distribuição de fortes políticas está definitavamente ampliando o volume mundial de resultados de pesquisa acessíveis livremente.
Sobre a atual situação da via Dourada:
Nós estamos fazendo progresso também nesta estratégia. O número de revsistas com revisão por pares OA está crescendo rápidamente, tanto as novas revistas OA quanto as revistas existentes que são acessíveis por meio de assinaturas convertidas para OA. Há mais revistas OA dando lucro. Existem mais revistas OA ganhando reputação pela sua alta qualidade, importância e prestígio.
Existem mais experimentos com diferentes modelos de negócio para revistas OA em diferentes nichos e mais reconhecimento de que há muitos diferentes modelos de negócios a experimentar. Há mais universidades e agências de fomento dispostos a pagarem pelas taxas de publicação para revistas OA cujos modelos de negócios se baseiam no pagamento dessas taxas – e, , esses números estão crescendo mesmo em uma profunda recessão.
Há mais reconhecimento de que o apoio a revistas OA é um investimento em nível superior ao suporte à pesquisa, pesquisadores, instituições de pesquisa, e revisão por pares. Mais revistas OA estão documentando que sua conversão para o OA aumentou o número de submissões e impacto na citação.
O crescimento no número de conversão de revistas, baseadas em assinaturas, para OA, em meu entendimento, sugere que os editores de pequeno e médio porte estão começando a ver o OA menos como uma ameaça e mais como uma estratégia de sobrevivência. Os grandes negócios estão absorvendo os orçamentos das bibliotecas, o orçamento das bibliotecas são estáticos ou decrescentes, e revistas excluídas dos grandes negócios têm pouco futuro em modelos baseados em assinaturas.
De fato, eu vejo um maior reconhecimento de que o modelo baseado em assinaturas é insustentável em um mundo no qual o volume de conhecimento publicado cresce rapidamente, e os preços de assinaturas cresce mais rápido que os orçamentos das bibliotecas e a inflação.
Eu vejo mais agências de fomento e governos – não apenas bibliotecas e universidades – chegando à conclusão de que a barreira do preço a esta critica e útil literatura criam espaços danosos ao acesso e minam os investimentos públicos em pesquisa e revisão por pares. Estas instituições têm se comprometido com a estratégia da via Verde, mas elas também estão se comprometendo de forma crescente com a estratégia da via Dourada também.
Segue a mensagem de Suber aos editores que se mantêm contra o OA, especialmente aqueles que fazem lobby contra os mandatos de auto-arquivamento (depósito):
“Eu diria que eles devem aceitar a legitimidade de exigir OA à pesquisa que recebe financiamento público e concentrar suas objeções sobre a duração do embargo permitido. Se não, eles estão colocando seus interesses privados à frente do interesse público e exigindo que os órgãos públicos façam o mesmo.
“Se eles não se opõe aos mandatos da via Verde do OA para as pesquisas com financiamentos públicos e apenas resistem à idéia de converter as revistas, baseada em assinaturas, para revistas OA por si só, então eu não tenho nenhuma objeção. Mas eu devo exortá-los a permitir que o autor seja iniciado à estratégia verde do OA. Eu devo exortá-los a estudar a estratégia da via Dourada para os editores que estão pagando suas contas e fazendo lucros e estudar a real sustentabilidade do modelo de negócio baseado em assinatura em um mundo de crescimento rápido das pesquisas e orçamentos estacionários ou decrescente das bibliotecas. Mas a escolha é deles, e eu nunca quis que a política do governo fosse além da regulação dos subsídios para a regulação dos editores.
“Para mim, o recado aos editores cujo modelo de negócios de suas revistas é baseado em assinatura tem 4 pontos: em primeiro lugar, permitir a estratégia verde do OA. Em segundo lugar, estudar a estratégia Dourada do OA. Terceiro, não agir da mesma maneira como órgãos públicos agem no interesse público. Quarto, não agir da mesma maneira como pesquisadores e instituições de pesquisa agem no interesse da pesquisa.”
Via Verde x Via Dourada Parte VIII – Entrevista concedida pelo reitor Bernard Rentier ao jornalista Richard Poynder
RP: Você está particularmente associado à estratégia da via Verde do OA. Quais são os seus pontos de vista sobre os prós e contras das duas estratégias: Via Verde e Via Dourada?
BR: A estratégia da Via Verde do OA fornece resposta imediata às necessidades da universidade, e dá visibilidade imediata aos pesquisadores de uma instituição. Se a estratégia da Via Verde crescer de forma constante, como está fazendo atualmente, ele irá conduzir à Via Dourada do OA. Então, para mim a Via Verde é um caminho para o OA, mesmo que seja difícil de avaliar o tipo de linha de tempo enfrentaremos
RP: Os editores muitas vezes argumentam que a estratégia Via Verde do OA ameaça tanto os seus negócios individuais como as publicações acadêmicas/científicas em geral, particularmente se um grande número de artigos são colocados em acesso livre sem um período de embargo adequado. Você concorda que existem perigos aí? Em caso afirmativo, como podem ser evitados?
BR: Eu não acredito que seja o caso. Alguns exemplos demonstram isto. Certamente, para editores regionais, particularmente, em línguas locais como o francês, é uma grande vantagem.
Por exemplo as editoras de nossa universidade, que eram, naturalmente, inicialmente fortemente contrária à minha política de leitura livre, percebeu que o mandato verde OA (ou seja, depositar as publicações em repositórios como ORBI) serviu para ampliar seu perfil em outros países de língua francesa, tais como: a França, Suíça e Canadá/Quebec.
Este por sua vez, aumentou o número de assinaturas junto a pessoas que querem folhear a revista inteira, em vez de apenas ler um artigo único que eles encontraram no ORBI. Este é um efeito inesperado e indireto, mas demonstra que a tornar artigos acessíveis livremente não prejudica as vendas. Pelo contrário, aumenta a sua visibilidade fora dos mercados tradicionais.
RP: Em sua visão, qual é o período ideal de embargo?
BR: Pelas razões que descrevi acima, não vejo necessidade de qualquer tipo de embargo. Até hoje, este ponto não foi entendido pelos editores. Eles devem ver a disponibilidade imediata de um artigo, em acesso livre, como um trailer para a venda da revista completa. No entanto, reconheço que os editores verão isto como uma estratégia arriscada, por isso os benefícios terão de ser demonstradas ao longo do tempo. Nesse meio tempo, eu diria que um embargo de seis meses é razoável.
RP: A ULG apoia a estratégia Via Dourada?
BR: Não de uma forma muito coercitiva. No entanto, oferecemos a oportunidade de publicar trabalhos em OA diretamente através do PoPuPS.
RP: Isto seria o Portal for the Publication of Scientific Journals? Eu estaria correto em pensar que PoPuPS é uma plataforma de publicação desenvolvida para permitir aos pesquisadores da ULG publicar seus próprias periódicos?
BR: Sim. Já existem 13 revistas aderentes à estratégia Via Dourada do OA em linha. E desde 2006 operamos também um programa chamado Bictel/e. Este é um repositório de teses da ULG. Todas as nossas iniciativas OA estão descritos na web.
A propósito, nós apoiamos também, financeiramente, quaisquer autores que queiram publicar em revistas de acesso livre, tais como aqueles publicados pelo BioMed Central (BMC).
RP: Você quer dizer que a Universidade de Liège tem um fundo de apoio à OAVia Dourada OA, ou que se inscreve em programas de afiliação operados por editoras OA como BMC, que permite que pesquisadores publiquem em revistas OA, sem qualquer custo para si mesmos, ou pelo menos a uma taxa reduzida?
BR: Nós temos um fundo OA limitado, mas nós, de fato, compramos opções de desconto junto ao BMC, e usamos o fundo para apoiar os nossos pesquisadores que publicam em revistas do BMC.

